Machado de Assis

Embora Machado de Assis seja classificado com autor realista, seu estilo é bastante singular; suas obras dialogam tanto com Romantismo quanto com o Realismo.

Apesar de o julgamento contemporâneo muitas vezes classificar Machado de Assis como um autor realista, principalmente nos livros didáticos, ele foi um grande contestador do movimento. Em sua crítica a O Primo Basílio, de Eça de Queirós, considerado um marco do Realismo em Portugal, país europeu de grande influência cultural para sua ex-colônia, Machado aponta os problemas percebidos por ele no romance por causa dos moldes realistas.

Ainda que reconheça o talento artístico de Eça, o escritor condena a preocupação excessiva com os detalhes. As descrições pormenorizadas dos elementos físicos seriam desnecessárias sob seu ponto de vista. Ainda dentro da questão estética, Machado também discorda da valorização do acessório em detrimento do essencial. Um dos elementos chave para o desenvolvimento do enredo do romance português é a chantagem feita pela empregada Juliana. É um evento fortuito que ela encontre as cartas trocadas entre Luísa e seu amante. A ameaça de ser denunciada ao marido, isto é, o medo, e não a culpa, desestabilizam os nervos da protagonista. Sem esse fato, Basílio iria embora, Jorge regressaria e a vida conjugal de Luísa se restabeleceria sem maiores problemas, sendo o primo apenas uma aventura. Machado não vê força suficiente numa trama cuja reviravolta se dá pelo acaso, e não pelos dramas psicológicos intrínsecos aos personagens. Em sua concepção, a construção de caráter dos protagonistas é falha, posto que Luísa e Basílio não têm grandes motivações para o adultério. Eles são levados ao ato pelo tédio ou pela curiosidade.

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Ao que parece, o futuro autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas não compreende nesse momento certos recursos da estética realista. A ousadia de Eça de Queirós teria sido justamente criar uma personagem tão fútil que se torna isenta de maiores paixões, o que pode ser interpretado como uma crítica à falta de valores da burguesia moderna, e tirar o foco da protagonista para dar força a uma personagem secundária, a criada Juliana. Porém, é interessante que Machado se negue tão veementemente a fazer parte de alguma escola literária, pois isso limitaria sua arte, como, segundo o mesmo, limitou a de Eça. De fato, a literatura machadiana não se encaixa por completo em nenhum padrão pré-estabelecido. Em suas obras, há diálogo com o Romantismo, ou mesmo com o Realismo, em determinados pontos. No entanto, seu estilo é bastante próprio, singular e universal.

É possível afirmar que há coerência, em certa medida, entre as críticas de Machado em relação ao Realismo e sua literatura diferenciada. As descrições nas obras do autor não são aleatórias, mas acontecem quando se quer explorar determinado aspecto do cenário ou do personagem. Como na descrição da casa de Bentinho em Dom Casmurro, em que a degradação do ambiente corresponde ao estado de solidão do protagonista. O andamento de sua história segue de acordo com as ações dos personagens principais, e não de elementos externos. Brás Cubas narra sua trajetória, assim como Dom Casmurro. Ou mesmo quando a narração é em terceira pessoa, como em muitos de seus contos, o narrador normalmente acompanha a perspectiva de um personagem, focando em seu conflito.

Além disso, Machado brinca com a verossimilhança tão prezada pelos realistas. Memórias Póstumas de Brás Cubas é narrado por um defunto autor, que debocha do leitor a todo momento. O primeiro prólogo da obra é assinado pelo protagonista, em tom de provocação. O narrador machadiano é irônico, escorregadio, não se compromete com a realidade, mas com a sua verdade pessoal, contando aquilo que lhe interessa da maneira como lhe convém. Ele também desacredita do cientificismo, grande norteador da corrente naturalista, chegando a criticar os progressos incontestáveis da ciência em obras como O Alienista.

Sob o aspecto moral,o autor condena a necessidade de se explicitar cenas cruas na estética realista. As cenas eróticas por ele construídas são insinuantes, jamais explícitas, como em Uns Braços e Missa do Galo. Há, porém, a exposição da violência na cena da tortura do rato em A Causa Secreta. A linguagem velada de Machado faz com que ele se ressalve das descrições das cenas de encontro entre Luísa e Basílio no romance de Eça.

Quanto à crítica da ausência de motivação aparente para o adultério de Luísa, observa-se que o próprio Machado explora posteriormente a questão do mistério das atitudes humanas, nem sempre de fácil explicação. Em Singular Ocorrência, não se sabe até o fim o que teria de fato levado Marocas a trair o amante. Algumas hipóteses são levantadas, como a “nostalgia da lama”, negada de imediato pelo interlocutor, e o mistério permanece. Em A Causa Secreta, Fortunato é descrito como um sádico. Descobre-se que a causa secreta de seus cuidados com os enfermos seria o prazer sentido pela observação da dor alheia. Num patamar mais profundo, porém, não é possível desvendar o que exatamente motiva esse sadismo, pois é algo intrínseco a sua personalidade.

Houve, portanto, um amadurecimento literário de Machado, que, à época do lançamento de O Primo Basílio ainda escrevia romances ao estilo romântico, como Iaiá Garcia. Como ele parou de escrever críticas, não é possível comparar seu julgamento após a nova fase. Provavelmente ele ainda teria suas ressalvas em relação à estética realista, que, de fato, apresenta problemáticas, pelo grau de radicalismo ideológico. Porém, talvez já fosse capaz de perceber o valor de romances como o de Eça de Queirós, autor que, à sua maneira, era tão bom observador do comportamento humano quanto o próprio Machado.

Fonte: http://homoliteratus.com/machado-de-assis-e-o-realismo/

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