Discurso do Diretor de Cultura, Nilceu Bernardo, na abertura do Festival do Livro

Boa noite a todos.
O trabalho com a cultura é sempre um eterno começar. Mas o que é mais importante é começar de lugares e níveis diferentes das etapas anteriores. É importante sentir o processo, a evolução. Chegamos a essa 4ª edição do Festival do Livro de Lençóis Paulista “Cidade do Livro”, slogan que recebeu na década de 80 por decreto municipal e desde 05/06/2012 pela Assembleia Legislativa de São Paulo. O que mostra que a cidade fomenta suas ações em torno do livro e de todo o seu significado.
O sentido deste Festival é realmente a festa. Mas a festa com o sentido mais profundo de respeito, valorização e sensibilização para a importância da leitura. Já disse Monteiro Lobato. “Quem mal lê, mal ouve, mal fala e mal vê” Orígenes Lessa, nosso eterno inspirador, sem dúvida alguma se estivesse entre nós, seria um grande agitador, e estaria muito presente no que vem sendo feito nesta Cidade do Livro.
No “Discursinho em Lençóis”, que pronunciou em 1980, em comemoração ao centenário da Igreja Presbiteriana Independente, ele descreve com muito conhecimento e sensibilidade dois momentos distintos dessa cidade. Que agora quero citar:

A terra era pequena e quase anônima. Eu procurava-lhe o nome nos mapas e nas geografias. Fácil era encontrar Botucatu, São Manuel, Avaré, cidade familiares a meu pai pastor. Achava Campinas, é claro. E Santos, de onde o café ganhava o mundo, inclusive muito e bom café colhido nas fazendas de Lençóis que se bastavam e que aparentemente só em tempo de eleição se lembravam da modesta sede do município. Mas Lençóis raramente encontrava. Um austero, apagado e vil anonimato oprimia a cidade que só provocava, quando eu dizia haver nascido em Lençóis, um pilhéria barata que todo imbecil julgava dizer pela primeira vez:

  – Ora… em Lençóis, eu também…

 Lençóis, não era para mim, a cidade em que eu havia nascido, mas a cidade que meu pai amava.

 (-Tão esquecida, tão pequenina…

 – Você ainda vai ter orgulho de haver nascido lá…)

Não sei onde ele conseguiu fundamentar aquela, mais que esperança, absoluta certeza… Lembro-me de que, depois de vinte anos ou mais sem passar por aqui, por volta de 1938 ou 39, o carro do Ministério da Agricultura, no qual eu visitava plantações experimentais de trigo pelo interior, foi encaminhado, pelos companheiros de caravana, para abicar em Lençóis.

Era de cortar o coração, meus amigos. Devia ser pouco maior do que a Lençóis de 1902 onde meu pai visitava os enfermos. Poeira vermelha bailando no ar, calor atroz naquela estação. Foi uma dura experiência. Dura, porque eu me havia acostumado, desde a infância, a amar aquela cidade que ninguém falava, tão distante da capital, onde a lama ou o pó, dos dias de chuva ou de sol, variava de tonalidade conforme o solo percorrido. O que me doía, porém, não era a modéstia, no lugar, apesar de tudo, no meu coração: era não poder fazer nada, eu, pela cidade. Outros a estavam construindo, nela moravam. Outros iriam fazê-la conhecida e rica e já estavam começando.

No item Biblioteca, em geral animadora noutros municípios, no nosso era doloroso: havia apenas uma, de menos de 200 volumes, num colégio qualquer.

E o fantasma daquela biblioteca inexistente passou a castigar a minha imaginação. Por uma deformação mental própria da profissão que o destino me dera, eu via naquela não-biblioteca uma espécie de desafio pessoal, o caminho talvez para um dia prestar algum serviço à terra natal que eu mal conhecia e que amava de amor infeliz.

Quando Orígenes mais de 20 anos depois vê a realização do sonho: uma Biblioteca sendo inaugurada em Lençóis, diz:
“E tive a felicidade de começar a descobrir que Lençóis já então Lençóis Paulista, havia deixado longe a cidadezinha de poeira e de barro vermelho dos primeiros tempos e enveredava pelos caminhos do progresso que hoje é irreversível”. Imagino o que Orígenes escreveria hoje vendo que a sua querida Biblioteca que se iniciou com 2000 livros hoje possui mais de 120.000, tem o dobro de seu tamanho físico e aguarda em breve uma ampliação que a deixará adequada com um ambiente moderno e propício à leitura, com três ramais, um Espaço Cultural voltado à sessão de livros raros e especiais com uma programação expressiva com grandes nomes da literatura, também dois pontos de leitura a serem inaugurados nos próximos meses no bairro do Caju e Núcleo Luiz Zillo com a maioria dos seus volumes digitalizados com funcionários em treinamento e aperfeiçoamento constante, com uma equipe que veste a camisa em todas as ocasiões, sendo rotineira ou pontuais. Uma população que usufrui destes volumes e sendo atendidos em 100% de suas solicitações de compra dos lançamentos literários que a BMOL ainda não tenha.
Escolas com bibliotecas exemplares, uma prefeitura e uma prefeita que apoia e estimula esse desenvolvimento. Acho que teria orgulho.
Bom Festival para todos.
Obrigado.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s